Reflexões sobre o chão do samba em debate no Centro Cultural Banco do Brasil

By at agosto 17, 2011 | 12:40 | Print

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Com reflexões e gargalhadas. Foi assim que Selminha Sorriso, porta-bandeira da Beija-Flor, e Nilce Fran, coordenadora da Ala de Passistas da Portela, arrancaram aplausos do público que ontem (3ª feira) acompanhou mais um encontro do seminário “Carnaval, que festa é essa?”, realizado no Centro Cultural Banco do Brasil, em parceria com o Ministério da Cultura. Vitoriosas na escola da vida, suas lembranças, opiniões e lições emocionaram a plateia que encheu o Teatro I para conhecer um pouco mais sobre ‘O chão do samba’.

De acordo com a estudiosa do Carnaval Maria Augusta Rodrigues, que se sentou na primeira fila, o debate é válido porque falta à sociedade, inclusive à imprensa, reconhecer a relevância do Carnaval ao longo de todo o ano: “No que tange à mídia falta divulgação porque o Carnaval só tem espaço quando se aproxima a data dos festejos. Pouco se comenta a respeito dos bastidores, dos profissionais que vivem do samba, dos que enveredam por outras formas de arte, o que me leva a acreditar que o Carnaval é ainda, sim, uma atividade marginalizada. É preciso acabar, por exemplo, com o preconceito relacionado às pessoas que militam no mundo carnavalesco”, declarou.

Os números em torno da economia movida pela folia realmente ratificam a
importância do Carnaval em todos os âmbitos. Segundo dados da RioTur, a
folia carioca movimenta aproximadamente R$ 1 bilhão, recursos tão
impressionantes que, por conseguinte, demandam estratégias de administração e, claro, profissionais qualificados. Assim sendo, em defesa dos sambistas, o mediador Aydano André Motta abriu o evento salientando “o abandono absurdo a que estão submetidos diante do que é conhecido como o maior espetáculo da Terra.

Para a porta-bandeira Selminha Sorriso, os artistas do samba estão longe de ter a remuneração e o respeito que merecem: “Os sambistas provaram ao mundo que o samba é capaz de abrir portas, dar dignidade e nada tem a ver com malandragem. Por isso, como brasileiros, merecíamos ser mais respeitados. Se falarmos em termos financeiros, então, estamos muito desvalorizados. Os cachês são os mesmos de 10 anos atrás, os mesmos R$ 50 são oferecidos. Não precisamos ganhar tanto quanto os jogadores de futebol, mas, na velhice, queremos ter o suficiente para comprar nossos remédios, ao invés de esmolar”, disse ela.

Quando a conversa chegou ao assunto educação, ambas as participantes, haja vista coordenarem projetos sociais com crianças da comunidade, foram categóricas: Muitas vezes, as escolas de samba, com o apoio de
patrocinadores, assumem o papel do Estado, formando o futuro do Brasil: “Se cobramos às mães o boletim escolar e o atestado de saúde de seus filhos, elas estranham, perguntam pra que pedimos estes documentos. Então, digo a elas que sem saúde e estudo as crianças não podem se dedicar ao samba ou a qualquer outra atividade”, lembrou Nilce Fran, que há 10 anos, ao lado do colega Valci Pelé, ensina a dança através do Projeto Primeiro Passo, em Oswaldo Cruz.

Se a responsabilidade fora da Sapucaí é grande, na Avenida ela gera
surpresas por vezes nada agradáveis. A porta-bandeira da Beija-Flor contou que, em 2007, minutos antes de vestir a fantasia, sofreu com uma tremenda dor de barriga. Mas o pior, ressalta ela, estava por vir: o último desfile, este ano, foi mais tenso de sua carreira: “Sofri com a confecção da roupa – por isso nos atrasamos – e ainda tivemos, eu e Claudinho (mestre-sala), que enfrentar o óleo derramado na pista pela Porto da Pedra. Depois da apuração, ouvi comentários pesados, críticas duras e a cobrança foi enorme, mas como dar notas baixas a um casal que enfrentou tantas dificuldades?”, indagou Selminha, abrindo o coração.

Já com Nilce Fran, o tema espinhoso foi o questionamento quanto ao fato das passistas raramente se tornarem rainhas de bateria. Para ela, cujo talento levou à coroa e ao estrelato à frente dos ritmistas da Portela em 1995, 96 e 97, a comercialização do cobiçado posto é a explicação: “O comércio discrimina as passistas porque elas não têm dinheiro para contribuir com o Carnaval, com a fantasia da bateria, com festas, negociar. Sinceramente, não vejo como mudar isso. Na minha opinião, escola de samba não precisa de uma global ou de mulheres que estejam na mídia para provar sua grandiosidade”, afirmou.

Ainda com relação às passistas, uma novidade mereceu a aprovação de Nilce Fran e da maioria dos espectadores: o novo posicionamento da ala. Geralmente atrás do carro de som, os sambistas se sentiam prejudicados por vários fatores: “A Portela foi a primeira a tirar os passistas desta condição e a Beija-Flor entendeu o espírito da coisa, fez o mesmo. Espero que as demais escolas tenham o mesmo discernimento porque a comunidade não tem tempo pra sambar no pé, de modo que esta função cabe a nós. É um momento muito especial. E eu sou uma senhora com sinusite, rinite, gente, não tenho como ficar engolindo fumaça do carro de som”, brincou a portelense.

Antes do encerramento, Selminha Sorriso, como não poderia deixar de ser, explicou ao público o motivo do apelido que lhe cai, inquestionavelmente, como uma luva: “O Sorriso surgiu a partir da primeira matéria jornalística em que fui citada. No dia seguinte a minha apresentação como porta-bandeira da Estácio de Sá, o querido José Carlos Neto, que lamentavelmente agora se encontra bastante doente, estampou o título ‘O Sorriso da Estácio’ no antigo jornal A Notícia. A ideia agradou, de maneira que serei eternamente grata ao jornalista”.

O papo estava tão descontraído que as perguntas não paravam de chegar ao mediador. No entanto, as respostas ficarão para o próximo encontro, dia 20 de setembro, quando estarão presentes o presidente da Liesa, Jorge Castanheira, e o economista Carlos Lessa. O também economista Sérgio Besserman, ex-presidente do IBGE e do Instituto Pereira Passos, mediará o debate intitulado ‘Samba como economia da cultura’.

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