Encontro realizado ontem no CCBB, analisou os números do Carnaval Carioca.

By at setembro 21, 2011 | 21:13 | Print

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O Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro promoveu ontem, dia 20, mais um encontro do seminário “Carnaval, que festa é essa?”, cuja realização acontece desde maio no local. Para o evento, que conta com o patrocínio do Ministério da Cultura e do Banco do Brasil, foram convidados, desta vez, o economista Carlos Lessa e o presidente da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa), Jorge Castanheira, que debateram, com mediação do jornalista Plínio Fraga, acerca do tema “Samba como economia da cultura”.

As cifras foram a tônica da prestigiada discussão acompanhada por excelente público no Teatro I, com capacidade para 200 pessoas, uma prova de que Lessa estava correto já em suas primeiras considerações:

“Este povo brasileiro valoriza muito o chão em que pisa, onde mora, mas para se criar o verdadeiro espírito coletivo há apenas dois lugares: o templo religioso ou um local onde acontece uma festa. O Carnaval, portanto, é a projeção da nossa história social. Digo isso também porque tudo o que o povão cria é facilmente apropriado pela elite”. Desta forma ainda, ou melhor, desta perspectiva pode ser vista a trajetória do nosso Carnaval, festa que é a marca do nosso país, um passo fundamental pra ideia de nos consolidar como nação”, declarou ele, abrindo a conversa.

Já o presidente da Liesa, referindo-se aos desfiles das escolas de samba do Grupo Especial no Marquês de Sapucaí, salientou que não à toa o Carnaval é chamado de ‘O maior espetáculo da Terra’: “Hoje não sobra um ingresso sequer para assistir aos desfiles de domingo, segunda e das campeãs, cujas bilheterias geram em torno de R$ 43 milhões. Os camarotes e frisas não podem ser vendidos pela internet porque é simplesmente inviável, haja vista que a procura é muito superior à oferta. E tem mais. Há mais de 12 anos os setores populares custam R$ 10. Não conheço um espetáculo da mesma magnitude com oito horas de duração, que custe apenas R$ 10. Quem pode, claro, paga mais”, diz ele, que se mostra orgulhoso do método utilizado para as vendas. “A pessoa compra por telefone, paga o ingresso numa agência do Banco Bradesco e, então no Rio, retira na central. É muito mais confortável e mais justo com as pessoas que antes precisavam enfrentar filas enormes. Pagamos mais por este serviço junto à Embratel, é verdade, mas ele permite que as pessoas não passem pelo sufoco de outrora”.

Os números são uma especialidade de Lessa que, todavia, lamenta que muitos cariocas fiquem de fora da festa: “Pesquisas comprovam que só o Grupo Especial gera mais emprego do que muito empregador brasileiro, então não há como negar sua relevância. O problema pra mim está na situação da torcida que está sendo expelida do espetáculo, assim como a Fifa se apropriará totalmente da Copa do Mundo, de modo que há um lado encantador relacionado à evolução da coisa e um outro assustador. É preciso um equilíbrio entre a manutenção das matrizes e a transformação, porque, sem dúvida, o Capitalismo é uma máquina de apropriação sem igual”, destaca ele, que lastima ainda que o carnaval carioca seja tão caro. ”Os blocos também são muito interessantes e não gastam tanto quanto as escolas de samba. Reconheço, porém, que o sucesso das escolas campeãs está abrindo espaço para as demais manifestações”.

E os custos para a criação dos desfiles são realmente astronômicos. O orçamento de cada agremiação da elite do carnaval carioca, segundo Jorge Castanheira, varia entre R$ 5 milhões e R$ 7,5 milhões. Tais cifras, de acordo ainda com o presidente da Liesa, se devem ao crescimento e profissionalização do espetáculo: “Concordo que não pode haver prejuízo cultural, mas também não é cabível engessarmos as escolas que hoje investem em projetos sociais, qualificação e doam milhares de fantasias às comunidades, recebendo somente R$ 1 milhão da prefeitura. Além disso, elas dão dignidade aos sambistas. Um exemplo disso é a remuneração dos autores dos sambas-enredo. No Sábado das Campeãs, estes geraram entre R$ 220 mil e R$ 290 mil aos compositores, recompensados com 10% das bilheterias”.

O tempo é inequivocamente implacável, mas não só com os saudosistas de uma competição de caráter mais popular. As obras no Sambódromo, que começaram em abril, preocupam artistas e foliões, temor este que, entretanto, não dividido com Castanheira: “Até o final de dezembro tudo deverá estar como planejado. Serão mais 15 mil ingressos à venda, investimento em som, na área para os patrocinadores. Nós estamos acompanhando as obras, está tudo dentro do cronograma, e, assim sendo, no dia 08 de janeiro começarão os ensaios técnicos, uma oportunidade para que as pessoas que nunca assistiram aos desfiles possam curtir a festa de forma gratuita e segura”.

Por fim, dois temas recorrentes, quando o assunto é carnaval, foram colocados em questão pela plateia: O direito de transmissão dos desfiles pela TV Globo e a ingerência do Jogo do Bicho nas agremiações. De maneira categórica, o presidente da Liesa respondeu a primeira pergunta, explicando que a emissora investe pesado na transmissão todos os anos, sendo inegável o seu padrão de qualidade. Ele Informou ainda que graças ao pagamento adiantado de seus direitos, a TV Globo ajuda na construção do espetáculo produzido pela escolas que, nos últimos três meses (julho, agosto e setembro), por exemplo, receberam R$ 1,2 milhão referente a esta fonte de receita. Já Lessa ficou com a segunda pergunta e lembrou que vários cidadãos renegados foram reinseridos à sociedade com ajuda da atividade que, mesmo ilegal, é sustentada pelo povo. Sendo assim, com bom humor, ele afirmou não ver problema no fato do bicho ter relação com o Carnaval.


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