Vila Isabel

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G.R.E.S. Unidos de Vila Isabel

Fundação: 04.04.1946
Cores: Azul e branco
Símbolo: Uma coroa
Quadra: Avenida 28 de Setembro.382. Vila Isabel – Rio de janeiro – RJ
Barracão: Cidade do Samba Rua Rivadávia Corrêa,60 Gamboa Fabrica 5
Telefone: (21) 3181-4869/ 2578-0077 (quadra) (21) 2263-3937 (barracão)
Site: www.gresunidosdevilaisabel.com.br
Imprensa: Natalia Louse (21) 7859-2796 [email protected]
Presidente: Wilson DA SILVA Alves (Wilsinho)

Presidente de honra: Wilson Vieira Alves e Martinho da Vila

Vice-Presidente: Elizabeth Aquino

Enredo:  “Você Semba Lá …. Que Eu Sambo Cá! O Canto Livre de Angola”

Carnavalesco:  Rosa Magalhães 
Diretor (es) de Carnaval:
Diretor (es) Harmonia: Décio da Silva Bastos
Coreógrafos da Comissão de Frente: Marcelo Misailidis
Diretor de Bateria: Paulinho e Mug
1º Casal de mestre-sala e porta bandeira: Julinho e Rute
Rainha de Bateria: Sabrina Sato
Intérprete: Tinga

 

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Ouça o samba vencedor:

Autores: Evandro Bocão, Arlindo Cruz, André Diniz, Leonel e Artur das Ferragens

VIBRA ÓH MINHA VILA
A SUA ALMA TEM NEGRA VOCAÇÃO
SOMOS A PURA RAIZ DO SAMBA
BATE MEU PEITO À SUA PULSAÇÃO
INCORPORA OUTRA VEZ KIZOMBA E SEGUE NA MISSÃO
TAMBOR AFRICANO ECOANDO, SOLO FEITICEIRO
NA COR DA PELE, O NEGRO
FOGO AOS OLHOS QUE INVADEM,
PRA QUEM É DE LÁ
FORJA O ORGULHO, CHAMA PRA LUTAR

REINA GINGA Ê MATAMBA VEM VER A LUA DE LUANDA NOS GUIAR
REINA GINGA Ê MATAMBA NEGRA DE ZAMBI, SUA TERRA É SEU ALTAR

SOMOS CULTURA QUE EMBARCA
NAVIO NEGREIRO, CORRENTES DA ESCRAVIDÃO
TEMOS O SANGUE DE ANGOLA
CORRENDO NA VEIA, LUTA E LIBERTAÇÃO
A SAGA DE ANCESTRAIS
QUE POR AQUI PERPETUOU
A FÉ, OS RITUAIS, UM ELO DE AMOR
PELOS TERREIROS (DANÇA, JONGO, CAPOEIRA)
NASCI O SAMBA (AO SABOR DE UM CHORINHO)
TIA CIATA EMBALOU
COM BRAÇOS DE VIOLÕES E CAVAQUINHOS A TOCAR
NESSE CORTEJO (A HERANÇA VERDADEIRA)
A NOSSA VILA (AGRADECE COM CARINHO)
VIVA O POVO DE ANGOLA E O NEGRO REI MARTINHO

SEMBA DE LÁ, QUE EU SAMBO DE CÁ
JÁ CLAREOU O DIA DE PAZ
VAI RESSOAR O CANTO LIVRE
NOS MEUS TAMBORES, O SONHO VIVE

GRES UNIDOS DE VILA ISABEL – CARNAVAL 2012

Enredo: “Você Semba Lá …. Que Eu Sambo Cá! O Canto Livre de Angola”

Carnavalesca: Rosa Magalhães 

Mentor do enredo: Martinho da Vila

AUTORES DO ENREDO: ROSA MAGALHÃES & ALEX VARELA

 

O Brasil e Angola são ligados por laços afetivos, linguísticos e de sangue. São quase irmãos pela história que os une.

Desde a Antiguidade, já existiam bestiários que repertoriavam as estranhezas da fauna e das características geográficas. Segundo o jesuíta Sandoval (1625), “ Os calores e os desertos da África misturavam todas as espécies e raças de animais, em redor de poços, criando um ecossistema particular, capaz de engendrar hibridações monstruosas. Tal circunstancia fazia da África, o continente de todas bestialidades, o território de eleição do diabo.”

 As bestialidades de que falava tal escritor eram hipopótamos e rinocerontes, chacais e hienas, zebras e girafas, avestruzes e palancas negras, entre outros.

 A estranheza também era causada pela cor da pele de seus habitantes.

As regiões abaixo do deserto do Saara, chamadas de Ndongo e Matamba, eram habitadas por dois povos distintos: os ambundos e os jagas. Os primeiros eram excelentes ferreiros, cuja habilidade era muito apreciada. Os jagas, por sua vez, se destacavam como guerreiros invencíveis, pois se exercitavam diariamente em local apropriado a que chamavam de quilombo.

Na época da expansão marítima portuguesa, esses dois povos possuíam um soberano a que chamavam de Ngola.

No século XVII, a região de Angola era governada por uma rainha chamada Njinga, que era ambundo pela linhagem materna e jaga, pela paterna. Expressão do encontro de dois grupos étnicos, que apesar de semelhantes, tinham organizações distintas, Njinga os governou com sabedoria. A persistência do incômodo causado pelo seu sexo, entretanto, levou-a a assumir um comportamento masculino, liderando batalhas pessoalmente e vestindo de mulher seus muito concubinos, que faziam parte de seu harém.

Apesar da fama de Njingater sido construída na luta da resistência contra o domínio de Portugal, entre os portugueses o reconhecimento de seu talento político e capacidade de liderança 

surgiu a partir de seu desempenho como chefe de uma embaixada que o então Ngola do Ndongo, enviou ao governador português, em 1622. Recebida com uma pompa que deve tê-la impressionado, Njinga também teria causado impacto entre os portugueses ao agir e falar no mesmo idioma que o deles, como chefe política lúcida e articulada.

O interesse português era um só – mão de obra para outra colônia de além–mar, o Brasil. Embora fossem ricos em minerais, em diamantes, nada disso os interessou. Pois na época, o reino de Angola era o grande manancial abastecedor dos engenhos do Brasil. Sem o açúcar, não havia o Brasil. Sem negros não haveria o açúcar. Sem Angola, não havia negros. E, sem Angola não havia o Brasil.

Apesar da resistência de Njinga, o comércio era feito de modo avassalador. Os negros cativos ficavam em barracões, que podiam acolher cerca de 5.000 almas, que eram embarcadas rumo ao novo continente, em viagem longa, cuja duração podia ultrapassar dois meses, dependendo das condições climáticas. O porto e partida era Luanda, o maior centro de comércio escravagista africano. A cidade alcançara essa posição a partir do momento em que os escravos passaram a ser embarcados diretamente para as colônias americanas. Aproximadamente doze mil viagens foram feitas dos portos africanos para o Brasil, para vender, ao longo de três séculos, quatro milhões de escravos, aqui chegados vivos.

A despedida era simples. A cerimônia de batizado era na hora do embarque: – Seu nome é Pedro; o seu é João; o seu, Francisco, e assim por diante. Cada viajante recebia um pedaço de papel com um nome escrito. Então, um intérprete ironicamente dizia: “Sois filho de Deus, a caminho de terras portuguesas, esquecei tudo que se relaciona com o lugar de onde viestes, agora podeis ir e sede felizes”.

A morte social despe o escravo de seus ancestrais, de sua família, e de sua descendência. Retira-o de sua comunidade e de sua cultura. Ele é reduzido a um exílio perpétuo.

E lá se vão, num navio abarrotado, sem alimentos adequados, sem sequer espaço para se acomodarem. Levam na memória, os cantos, as danças, os ritmos, as tradições. Levam Njinga e seu espírito combativo, a levam na memória, apesar das ordens para esquecerem tudo….

Os navios negreiros aportavam no Cais do Valongo, longe do rebuliço da cidade. Alí os escravos viviam em depósitos, a espera para serem comprados. Pois foi em 1779, por ordem do Vice-Rei, marquês de Lavradio, que nesta região se localizaram o cais, o mercado e as precárias instalações para abrigar os recém chegados.

Por ironia do destino, foi neste mesmo cais, que anos mais tarde, receberia em 3 de setembro de 1843, a princesa Tereza Cristina, futura Imperatriz do Brasil, e também mãe da princesa Isabel, aquela que terminaria de vez com o regime de escravidão. O cais foi remodelado e uma cenografia decorativa escondia aos olhos reais as imagens da pobreza extrema e a humilhação a que eram submetidos os recém chegados.  

Lá, destaca-se Tia Ciata, dando continuidade aos festejos que já aconteciam no Campo de Santana, abandonado pelos festeiros após a Reforma do local. Tia Ciata nasceu em Salvador em 1854, e aos 22 anos, trouxe da Bahia o samba para o Rio de Janeiro. Foi a mais famosa das tias baianas, trazendo também o candomblé, do qual era uma ialorixá. Na Casa da Tia Ciata ecoavam livremente os batuques do samba e do candomblé.

Segundo Mary Karash, das danças escravas, como o lundu, capoeira e jardineira, a que ficou conhecida no século XIX por “batuque” é a mais próxima do samba carioca moderno.

O termo SAMBA, possuía uma clara origem angolana. O verbo kusamba, que significava saltear e pular, provavelmente expressasse uma grande sensação de felicidade.

Hoje,”O Samba é considerado como um produto da história social brasileira”. De acordo com o presidente do Iphan, “O gênero musical e coreográfico pode ser considerado tanto como sendo próprio de comunidades culturais identificáveis (executantes e brincantes inseridos em agrupamentos sociais de pequena escala) e também no contexto da vida urbana, e da indústria cultural mediatizada. O vigor do Samba enquanto gênero cultural encontra-se em sua plasticidade e capacidade de gerar inúmeras variantes, como o samba-de-roda, o samba carioca, o samba rural paulista, a bossa nova, o samba-reggae e outros mais, em suas diversas interpretações.”

Aqui na Vila Isabel, que é de Noel, e de Martinho, devemos a ele esta história. Ele que, nos anos 70, fez sua primeira viagem ao continente negro e durante muitos anos foi a ponte entre o Brasil e Angola, sendo considerado um Embaixador Cultural. Levou a música brasileira como um presente ao povo amigo e irmão, através das vozes tão brasileiras de Caymmi, João Nogueira, Clara Nunes e ainda Chico Buarque, Miúcha, Djavan, D. Ivone Lara, entre outros. Três anos mais tarde, Martinho elaborou um projeto trazendo a música angolana para os brasileiros, a que chamou de O Canto livre de Angola.

Nosso samba…. seu semba …por isso enquanto eu sambo cá…. você semba lá…

Rosa Magalhães (Carnavalesca) & Alex Varela (historiador)

Bibliografia consultada:

ABREU, Martha. O Império do Divino. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.

ALENCASTRO, Luis Felipe. O Trato dos Viventes. A Formação do Brasil no Atlântico Sul. S. Paulo: Cia. das Letras, 2000.

KARASCH, Mary C. A Vida dos Escravos no Rio de Janeiro, 1808-1850. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

LOPES, Nei. Kitabu. Rio de Janeiro: Editora Senac, 2005.

MARTINHO DA VILA. Kizombas, Andanças e Festanças. Rio de Janeiro: Léo Christiano Editorial, 1992.

MOURA, Roberto. Tia Ciata e a Pequena África do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Arquivo Público do Estado, 1992.

RODRIGUES, Jaime. De costa a costa: Escravos, Marinheiros e Intermediários no trafico de Angola ao Rio de Janeiro. São Paulo: Editora Schwarcz, 2005.